Pandemia e mortes da cultura

Por Antonio Albino Canelas Rubim*

Inúmeras iniciativas, em todo mundo e no Brasil, tentam decifrar os múltiplos enlaces existentes entre cultura e pandemia. No país, a conjuntura têm sido sobredeterminada pela onipresença da pandemia conjugada ao pandemônio, provocado pelo (des)governo federal, que age no dia-a-dia polarizando tensões na sociedade. A atitude agressiva de Messias Bolsonaro alimenta o pandemônio, causado pela perversa conjunção de crises política, econômica, social, ambiental e cultural. O caos socioeconômico deriva da imposição desenfreada da ideologia (ultra)neoliberal. Ela amplia a desigualdade social, destrói direitos dos trabalhadores e da população e agride a soberania nacional. Em suma, a conjuntura brasileira combina pandemia e pandemônio na atualidade.

O Brasil vive ou sobrevive em um cenário de notável complexidade, muito volátil, com graves repercussões sobre a capacidade de previsibilidade de cenários prospectivos minimamente consistentes. A institucionalidade democrática encontra-se cada vez mais debilitada, frente aos ataques da gestão Bolsonaro e à complacência e até mesmo covardia de algumas instituições, que deveriam zelar pelo comprimento da Constituição Federal e pela defesa da democracia. Sem respeito às instituições e sem funcionamento adequado delas, a possibilidade de previsão de futuros fica totalmente comprometida. Já não existem os parâmetros das legislações e das instituições para balizarem os limites, legais e possíveis, da atuação dos agentes políticos. Em lugar do pacto democrático, instala-se cada vez mais uma situação de anomia. Nela impera a situação do salve-se quem puder e a violência do mais forte. Enfim, a ditadura teima em aparecer como horizonte, conforme o único plano real da dupla Messias Bolsonaro / Paulo Guedes.

Neste complexo e singularíssimo contexto, distinto de qualquer experimento existente no cenário internacional, o (des)governo federal impôs ao país irresponsável atuação no enfrentamento da pandemia, desobedecendo todas as orientações da OMS, dos cientistas estrangeiros e brasileiros e da imensa maioria dos especialistas do campo da saúde. A caótica situação do Ministério da Saúde, com trocas aleatórias de gestores e militarização desqualificadora do órgão, resulta em genocídio, com aumento assombroso do número de mortes e de infectados no Brasil.

A cruel conjuntura impacta toda a sociedade brasileira. Todos os setores sociais sofrem com o caos instalado desde a gestão central. Não poderia ser diferente com o campo cultural, já submetido aos ataques cotidianos da gestão Messias Bolsonaro. A cultura foi um dos primeiros segmentos sociais paralisados pela quarentena, que procura amenizar o imenso poder de contágio do novo coronavírus. A crise da economia da cultura toma a cena: centros culturais paralisados e, logo, sem recursos financeiros; trabalhadores da cultura desassistidos em precárias condições de vida e de sobrevivência;  políticas culturais totalmente paralisadas desde a destruição do Ministério da Cultura e a troca incessante e desqualificada dos secretários nacionais de cultura.

Diante do gravíssimo panorama nacional e da ausência de qualquer iniciativa no sentido de enfrentar a crise socioeconômica da cultura, o campo cultural superou suas tendências históricas de dispersão e de prevalência das visões corporativas de áreas culturais. A comunidade cultural, em todas suas inúmeras ramificações, conseguiu se movimentar através de múltiplos procedimentos e alcançar a agenda pública. Tal atitude propiciou uma das mais expressivas mobilizações do campo cultural em tempos de pandemia. Os inúmeros movimentos político-culturais, nascidos contra os ataques à cultura desde o golpe midiático-jurídico-parlamentar de 2016 e intensificados na gestão Messias Bolsonaro, se mostraram capazes de unificar suas demandas em torno da Lei Emergencial da Cultura, intitulada com muita justiça de Aldir Blanc, tecida com políticos da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Em articulação com parlamentares e partidos de diferentes orientações político-ideológicas, a comunidade cultural conseguiu sensibilizá-los e obter expressivas vitórias nas votações na Câmara dos Deputados e no Senado Federal da Lei Emergencial da Cultura, direcionada para o auxílio emergencial aos trabalhadores da área e aos centros culturais. Depois da certa letargia política causada pelos absurdos e continuados ataques da gestão Bolsonaro contra a cultura, o campo conseguiu vencer o desânimo e organizar uma manifestação político-cultural de vulto e capilaridade para aglutinar agentes culturais presentes em muitos estados e cidades brasileiras.

A mobilização estimulou a proliferação de ativismos, em sua maioria virtuais devido a quarentena, traduzidos em lives e publicações virtuais sobre: a situação da cultura e dos profissionais do setor; a luta e a lei conquistada no âmbito parlamentar e os novos passos da luta. Também no âmbito internacional surgiram lives e livros sobre cultura e pandemia, buscando debater e desvelar tais conexões. As interfaces existentes abarcam um espectro de grande amplitude e de ricas possibilidades de interação. Além das lives, de livros virtuais ou não, de outros tipos de publicações, de cursos on-line, floresceram algumas pesquisas, visado elucidar questões articuladas à lei aprovada, às ligações efetivadas entre a cultura e os tempos de coronavírus e, em especial, à análise dos impactos da pandemia sobre o campo cultural.

O olhar predominante mirava a circunstância da economia da cultura e as condições de trabalho, vida e sobrevivência dos trabalhadores da cultura. Enquanto estas temáticas adquirirem notável visibilidade nas redes e no ambiente cultural, outras ficaram invisibilizadas. Dentre elas, algumas remetiam ao incerto e imprevisível futuro da cultura no novo normal pós-pandemia ou até mesmo sondavam um futuro mais distante. Outras eram mais densas, dramáticas e humanamente concretas, porque traziam para a cena: corpos fragilizados, doentes, mutilados e mortos pelo coronavírus em todo mundo e no Brasil.

Importa muito recordar que a pandemia matou e continua a matar seres humanos no mundo e no Brasil. Cabe sempre lembrar que tais mortes têm enorme impacto sobre a criação e a dinâmica cultural. A cultura perdeu em termos internacionais criadores da dimensão de: Terrence McNally, aclamado dramaturgo norte-americano, Manu Dibango, saxofonista camaronês e lenda do afro-jazz; Mark Blum, ator; Andrew Jack, ator; Adam Schlesinger, músico; Alan Merril, músico; Vittorio Gregotti, arquiteto italiano; Joe Diffie, cantor country; Allen Daviau, fotógrafo; Floyd Cardoz, chef; Ellis Marsalis Jr., pianista; Wallace Roney, trompetista; Wilhelm Burmann, mestre de bale; Bucky Pizzarelli, músico e guitarista de jazz; Sergio Rossi, estilista italiano; Lee Ferro, atriz; Hal Willner, produtor musical; John Prine, músico, lenda country e do folclore norte-americano; Lee Konitz, músico, saxofonista de jazz; Luis Sepúlveda, escritor chileno; Troy Sneed, cantor gospel norteamericano; Marcelo Peralte, compositor argentino; Aurlus Mabélé, compositor e cantor congolês; Aileen Baviera, cientista política filipina; Paul Goma, escritor romeno; Gita Ramjee, cientista de Uganda / África do Sul; Germà Colón, escritor espanhol, Henri Richelet, pintor francês; Carlos Seco Serrano, historiador espanhol; Yu Lihua, escritora chinesa/norte-americana; Óscar Chávez, cantor, ator e pesquisador mexicano; dentre muitíssimos outros artistas, cientistas, intelectuais, mestres da cultura e pensadores.

No Brasil, a lista de perdas humanas de criadores culturais também é ampla. As mortes se encontram em todas as áreas culturais e em todos os territórios do país. Seu impacto sobre a vida da sociedade e a cultura brasileiras não serão desprezíveis. Cabe anotar esta trágica relação entre cultura e pandemia. Ela não pode ser de modo algum invisibilizada ou menosprezada. A gestão Messias Bolsonaro tem enorme responsabilidade sobre as dezenas de milhares de mortos ocorridas no país e sobre o desaparecimento de criadores, que enriqueceram a cultura brasileira.

Sem eles, ficamos mais pobres culturalmente. Não dá para esquecer este drama humano e cultural. O Brasil perdeu: Abraham Palatnik, artista plástico; Aldir Blanc, escritor e compositor, cujo nome foi dado, com justiça, à Lei de Emergência Cultural; Carlos José, cantor e seresteiro; Carlos Lessa, economista, ex-presidente do BNDES e incentivador da economia da cultura e de seu estudo; Ciro Pessoa, músico fundador da banda Titãs; Claudinho Guimarães, poeta; Daniel Azulay, desenhista e artista plástico; David Corrêa, cantor e compositor de sambas; Dayse Lúcidi, atriz e radialista; Eduardo Albarella (Miss Biá), estilista, maquiador e drag queen pioneira no Brasil; Evaldo Gouveia, músico, compositor e cantor; Fabiana Anastácio, cantora; Fernando Neves, ator e dramaturgo; Jesus Chediak, ator, jornalista, teatrólogo e cineasta brasileiro; Lourdes Catão, curadora e decoradora; Martinho Lutero Galati de Oliveira, maestro e criador da Rede Cultural Luther King; MC Dumel, funkeiro baiano de 28 anos e  designer; Naomi Munakata, maestrina ex-regente do Coro da Osesp; Nino Voz, cantor; Paulo Bittenca, fotografo, ator e diretor; Ricardo Brennand, colecionador de arte e gestor cultural; Sérgio Campos Trindade, cientista; Sérgio Sant’Anna, professor universitário e escritor

A tragédia humana que liga de modo umbilical cultura e pandemia não se reduz às mortes, por mais dolorosas e empobrecedoras que elas sejam. Muitas personalidades do campo cultural vivenciaram circunstâncias dramáticas, após serem diagnosticados infectados pelo novo coronavírus. O exemplo emblemático de Muniz Sodré pode ser lembrado como expressivo de todos aqueles que conseguiram lutar e vencer o coronavírus. Escritor, professor, estudioso da cultura, pesquisador da comunicação, jornalista, ligado à cultura e à religiosidade afro-brasileira, Muniz Sodré passou aproximadamente um mês hospitalizado entre a vida e a morte, com duas internações na UTI. Em torno de sua luta admirável pela vida se constituiu uma imensa corrente de amigos, familiares, colegas, professores, alunos, pesquisadores, religiosos e admiradores que buscaram levar toda energia positiva possível à recuperação de Muniz Sodré. Inúmeros outros criadores viverem a sobreviveram à terrível experiência de conviver invadidos pelo coronavírus.

Todo este drama humano da cultura não pode ser esquecido. Ele deve ser tematizado para lembrar dos sofrimentos humanos. De como eles marcam intensamente a humanidade. De como a atenção, os afetos, os cuidados e a sensibilidade são vitais para compor o que se chama de cultura e para sua tradução pelos criadores culturais. Assim, podemos celebrar e festejar a vida, sem esquecer que ela se constitui também de sofrimentos e perdas, sem se deixar iludir por visões adocicadas, distantes da cultura demasiadamente humana. Em meio à pandemia e ao pandemônio, o escritor Ignácio de Loyola Brandão escreveu interessante artigo na sua coluna jornalística, no dia 22 de maio, intitulada “Se eu morrer, saibam quem me matou”. A cultura no atual contexto brasileiro encontra-se ferida de morte, entre a pandemia e o pandemônio.

*Albino Rubim é pesquisador em políticas culturais. Atualmente professor do Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade da Universidade Federal da Bahia (UFBA). 

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