Território como potencialidade da gestão de espaços culturais

Território como potencialidade da gestão de espaços culturais

Por Thais Felix

O grupo de trabalho Gestão e Produção Cultural teve uma sessão especial no sábado à tarde. O GT discutiu e apresentou dois livros “SESC Campo Limpo – O Espaço de cultura como convivência – Diálogo e contraponto à lógica da Cidade”, dos autores Paulo Casale e Shirlei Torres Perez, editado pelo Sesc São Paulo, que trata da implantação da unidade do SESC no bairro da zona sul, periferia de São Paulo, em 2014; e “Um lugar para os espaços culturais: gestão, territórios, públicos e programação”, editado pela EDUFBA, com organização de Giuliana Kauark, Plinio Rattes e Nathalia Leal. A mesa foi composta por Ana Vaneska Almeida (Conselho de Cultura da Bahia), Fabiana Pimentel (UFBA), Mariana Albinati (UFRJ), Shirlei Torres Perez (SESC Pinheiros), Vitor Barreto (Casa Preta) e Giuliana Kauark como coordenadora. A proposta foi que tivesse uma rodada de apresentações dos seus respectivos trabalhos e depois uma interação entre o público e a mesa.

Pensar os espaços culturais e como eles têm se relacionado dentro dos territórios em que se encontram, desde a expressão identitária expressada na parte física desses espaços, a participação da população e até a forma como esse espaço está sendo gerido foi tema central das falas. Conceitos como o de cultura no singular, cultura no plural, valor de uso e valor de troca foram trazidos a tona por Mariana Albinati para contextualizar as discussões, ao trazer a ideia de espacialização das diferentes expressões culturais na cidade. Albinati fez sua dissertação de mestrado sobre as políticas culturais no bairro de Alagados, estudando em especial as relações entre o território e o Estado no Espaço Cultural Alagados.

Os relatos foram esboçados fazendo relação entre as experiências acadêmicas e pessoais, o que deu a quem assistia mais elementos para assimilar a gestão e a produção cultural para além de somente curadoria, ou somente produzir um evento ou um espaço. Gerir um espaço cultural tem muitas dimensões que precisam ainda ser exploradas. Tem relação com a participação coletiva da comunidade, o reconhecimento das populações não hegemônicas como potencialidades artísticas e administrativas, além de pensar cultura com leitura política, histórica e interseccional.

O centro cultural de plataforma foi citado pela Ana Vaneska, que coordenou o espaço, demonstrando como ele é um exemplo de como a comunidade participa ativamente, ocupando aquele espaço e inclusive demarcando para o Estado como eles precisam ser respeitados e representados naquele ambiente. Extrair o poder da máquina pública e compartilhá-lo com a população sujeito daquele espaço potencializa a possibilidade cultural.

Fabiana Pimentel, que geriu a Sala do Coro do TCA, trouxe como possibilidade para gerir espaços culturais uma metodologia de territorialização pensando convivência, um pertencimento ao espaço e como olhar para o território mostra um desenvolvimento com atores locais, sendo essa perspectiva uma força boa não só para o equipamento mas também para ressignificar o próprio território, um movimento de troca.

A Casa Preta, localizada no bairro do 2 de julho, foi trazida pelo Vitor Barreto como um espaço cultural alternativo por ter seu nascimento e desenvolvimento de forma não convencional. Pontuou como esse modelo inclusive permite uma relação intimista entre artistas e o público, os papéis se misturam e se completam, criando uma situação para além dos roteiros e perpassando a produção cultural. Vitor chamou atenção também para como a Casa Preta é afetada pela especulação imobiliária que tem fortemente desconfigurado o centro histórico da cidade e como o esvaziamento que vem junto com essa ação estigmatiza o local, invisibilizando assim o espaço cultural.

Shirlei Torres Perez, que é doutora e Mestra em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, falou da implantação da unidade do SESC em Campo Limpo, na zona Sul de SP, tendo como base o pensamento de cultura e educação que são conceitos norteadores do Sesc São Paulo.

Pensar os espaços culturais criticamente, analisando suas dificuldades de se fazerem populares, autênticos, ocupados, acessíveis,representativos, cheios de potencialidades negadas historicamente, e interessantes aos públicos é um trabalho que vai além do que a academia ensina. Tem relação com como se pensa a história dos territórios, a dinâmica dos outros espaços que circulam esse espaço cultural, tem relação com perceber as estruturas dominantes e como grupos que protagonizam lutas por reconhecimento e outras formas de existir culturalmente são grandes potencialidades.