Simpósio promovido pelo NUCUS discute performatividade de gênero, performances, artivismo trans e HIV

Simpósio promovido pelo NUCUS discute performatividade de gênero, performances, artivismo trans e HIV

Por Giovanna Hemerly

A vida imita a arte ou a arte imita a vida? Para pesquisadores do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Culturas, Gêneros e Sexualidades da UFBA (NUCUS), no artivismo queer, a vida e obra dos artivistas estão produzindo uma relação cada vez mais intrínseca. Mas como essa interação tem transformado o conceito do fazer artístico? E como essa ressignificação artística tem criado novos diálogos dentro do próprio movimento queer? Estas e outra questões acerca do universo artístico e ativista LGBTQI+ foram temas centrais no simpósio “Arte Como Potência de Si – Artivismo das Dissidências Sexuais e de Gênero”, realizado nesta quarta-feira (02), no auditório do PAF I da UFBA.

“Como a gente diferencia a performatividade de gênero de Linn da Quebrada da sua obra?”, questionou o criador e coordenador do NUCUS, Leandro Colling, enquanto abordava os conceitos sobre o performativo e a performatividade da pesquisadora estadunidense Judith Butler. De acordo com Colling, Butler busca diferenciar a performance das artistas drag queens, tidas mais como “um aspecto voluntário do artista que entra numa cena e faz uma representação”, do conceito de performatividade de gênero, mais associado às práticas comportamentais repetidas pelo sujeito a partir das normas sociais condicionadas, e que, apesar de fabricadas, são colocadas como naturais, geralmente dentro de um contexto de binariedade feminino e masculino.

Contudo, o caráter desruptivo do artivismo tem gerado desafios analíticos para os pesquisadores do NUCUS e suscitado uma revisão dessa perspectiva de Judith Butler. “Essa cena me coloca também um desafio, assim como a própria arte cis-feminista que já nos ensinavam também isso: a própria performatividade de gênero do artista é a sua obra. Então estou interessado em problematizar essa distinção que a Butler fez, mas também em pensar o que essa cena nos mostra sobre essa interface entre vida e obra”, afirmou Leandro Colling. O pesquisador enfatizou durante sua fala sobre a militância artística o potencial que este tipo de arte pode ter como resistência às pautas conservadoras que tem ganhado força no atual contexto político. “Na minha leitura, uma das grandes respostas que a comunidade LGBTQI+ está dando a essa onda conservadora é produzindo, através da sua arte, um contra discurso super potente que muita vezes é menosprezado, até mesmo por nós militantes”.

Colling relembra o poder que este tipo de arte pode alcançar com o caso ocorrido no início desse ano, no qual a postagem do vídeo de uma performance erótica em rede social provocou fortes discussões sobre a possibilidade de impeachment do presidente Jair Bolsonaro. “A primeira vez que se cogitou o impeachment de Bolsonaro foi no carnaval desse ano a partir de uma performance. Então nós não subestimamos o poder de uma canção e muito menos o poder de uma performance. Vocês já pensaram se Bolsonaro tivesse caído por ter compartilhado aquele conteúdo? Não seria genial que uma performance tivesse derrubado um presidente?”, interrogou Leandro Colling.

Desafios do artivismo trans

“Eu já cantava e interpretava, mas a partir do momento que minha identidade trans se torna pública e é lida e reconhecida socialmente, isso passa por um processo que eu acho interessante debater e questionar”, contou a pesquisadora do NuCus, cantora e poeta, Yuna Vitória. Segundo ela, o artivismo de pessoas trans não se trata apenas de uma expressão artística, mas de uma necessidade de subsistir nos meios artísticos, já que este grupo social é um dos principais alvos de discriminação. “O primeiro choque que eu tive foi nos bares onde eu sempre fiz apresentações por anos. O primeiro rapaz falou que não tinha mais interesse em ficar comigo a partir da transição. E o outro foi mais sincero e disse que não queria que a imagem do bar dele ficasse vinculada ‘a isso’”, relatou.

Além disso, Yuna Vitória contou ao público como sua trajetória artística e de diversas outras mulheres transgêneras são transformadas com o reconhecimento da própria identidade trans. “Aí os convites para apresentações vão mudando. eles diminuem e depois se deslocam. Antes eu ia para casa de espetáculos, fazia eventos de escritores, livrarias, bibliotecas e outros espaços mais ‘gourmetizados’. E a partir do momento que eu coloco uma proposta queer de arte, eu começo a ser alocada em outros lugares, como eventos LGBTs e simpósios de gênero”.

De acordo com a artivista, esse realocamento de espaços, além de constituir uma forma de discriminação, tem sido um grande fator limitante para sua proposta artística por restringi-la apenas ao público LGBTQI+, enquanto não alcança o público cis-heteronormativo, para quem muitas das suas obras visam dialogar. Contudo, segunda Yuna Vitória, abordar questões que vão para além das temáticas de gênero e sexualidade, tem sido uma forma enfrentamento encontrada para conquistar sua liberdade artística. “Com o tempo, vou percebendo que se espera apenas isso, que eu fale apenas de gênero, que fale apenas de sexualidade e que componha apenas esses espaços. Então, falar de outras coisas e não cantar apenas sobre isso se torna um movimento político de resistência”, afirmou.

Afetos, arte e ancestralidade

“No teatro tem que vestir a máscara para ser o outro. Só que hoje eu percebo que não preciso mais vestir a máscara para ser o outro, eu tenho que ser eu, na urgência, no agora”, afirmou a atriz, arte-educadora e integrante do NuCus, Xan Marçall. Diagnosticada como soropositiva, Xan explicou durante o simpósio como que receber o diagnóstico do HIV/AIDS trouxe uma outra forma de se relacionar com o tempo presente e futuro, e como essa mudança desencadeou em si uma urgência em voltar-se para suas próprias questões e vivências durante o seu fazer artístico nas artes cênicas. Manifestar essas vivências em meio às suas expressões artísticas tem sido inclusive uma forma encontrada pela atriz para dar visibilidade a causa e à própria situação do seu grupo social. “Para nós não é interessante montar coisas na qual a gente se esconda. Eu tenho sempre um processo de me revelar e me colocar diante do mundo”, disse.

Junto ao Coletivo das Liliths, coletivo de artes cênicas que abordam temáticas transversais, a artista busca trabalhar narrativas LGBTQI+ oriundas da cultura afrobrasileira e indígena, mas que não são tão difundidas, especialmente no cenário artístico popular brasileiro. Xan Marçall contou que deste modo, trabalhar com essas narrativas, principalmente nas escolas e outras instituições de ensino, tem sido uma forma de chamar atenção para outras formas de existências que vão além do padrão socialmente aceito, como também de fazer um resgate da cultura ancestral que vem sendo negada pela cultura hegemônica. “Quando nós falamos da gente, estamos trabalhando a oralidade, que faz parte da cultura dos nossos povos. E a oralidade talvez seja o lugar onde mais a gente tem informação e onde mais a gente pode trocar afetos e histórias que não foram contadas”, afirmou.

Além de participar do Coletivo das Liliths, Xan Marçall também participa do coletivo Loka de Efavirenz, que promove debates sobre questões relacionadas ao HIV/AIDS. Recentemente, com referência nos trabalhos da artivista soropositiva, Micaela Cyrino, o coletivo optou por incluir as artes performáticas no seu modo de fazer ativismo, buscando também resgatar nesse fazer artivístico narrativas das religiões de matriz africana, como acontece em uma de suas performances que traz uma leitura de Omolu, orixá regente das doenças e da cura, para dialogar as alternativas de tratamento.

Aline Ferreira, ativista e integrante do núcleo de articulação do Loka de Efavirenz, conta que foi há pouco tempo que o coletivo percebeu a necessidade de se trabalhar a abordagem dessas questões através da arte, em especial com as artes performáticas, como alternativa à abordagem acadêmica eurocêntrica ocidental. “Só recentemente começamos a trabalhar com arte. Foi no ano passado, 2018, que a gente escreveu uma performance chamada Amoladores de Faca e apresentou no Museu de Arte Contemporânea de São Paulo. Foi ali que compreendemos que essas formas da academia branca não nos veste, não é nossa”, relatou. Aline também contou que foi dessa forma que o coletivo se encontrou no processo de tratar da soropositividade a partir de uma perspectiva de afetos, autoconhecimento e autocuidado, evitando se prender apenas ao âmbito preventivo ou do tratamento com remédios. “Falar de prevenção e medicação o Estado já está fazendo, bem ou mal, mas está fazendo, pelo menos por enquanto. Mas agora, a gente precisa falar sobre viver com HIV”, afirmou a artivista.