Relatos e trajetórias marcam o simpósio sobre diversidade cultural

Relatos e trajetórias marcam o simpósio sobre diversidade cultural

Por Luana Gama

Um espaço para compartilhar experiências e relatos emocionantes de iniciativas sociais, culturais e ativismos que transformam a realidade de onde estão inseridos: assim pode ser descrito o simpósio Diversidade cultural e desenvolvimento: direitos, liberdades e participações sociais, realizado na manhã dos dias 2 e 3 de agosto, no Teatro Experimental da Escola de Dança da UFBA. A atividade fez parte da programação do XV Enecult e contou com a participação de representantes de vários setores ligados ao meio cultural e social, sob a coordenação do Observatório da Diversidade Cultural (ODC).

Vale destacar que, nos dois dias de simpósio, houve uma grande participação de mulheres negras que relataram suas vivências culturais e de militância. Na sexta (2), após se apresentar na abertura do XV Enecult com a performance Banho de Sangue, a dançarina Luzia Amélia Marques retornou ao evento para falar sobre o seu trabalho artístico. Criado por ela, Banho de Sangue surgiu em protesto ao crescente número de casos de feminicídio no país, sobretudo de mulheres negras. “Eu ficava sabendo dos casos e pensava ‘como é que eu consigo resolver isso? Como é que o meu corpo pode servir como manifesto? Como eu posso falar sobre isso?’ Quando eu vi a foto de uma mulher morta pelo namorado, eu pensei ‘isso é um banho de sangue’ e resolvi construir algo em torno disso”, relatou a dançarina.

Luzia também apresentou a performance em uma famosa rede de supermercado, logo após um jovem negro ter sido brutalmente morto pelo segurança do local. “Banho de sangue pra mim é como um ritual. A minha ideia com esse trabalho é sangrar o Brasil e falar desses corpos que a sociedade não quer, o corpo do negro, da mulher, LGBTQI+ indígenas e muitos outros”, contou. Como mulher negra, ela disse que se sente invisibilizada dentro da dança contemporânea, lugar de privilégios e sem protagonismo da mulher negra. “Parece ser sempre o lugar do homem branco e em sequência da mulher branca e depois do homem negro. A mulher negra ela é usada como mão de obra ou é é colocada em um lugar de subserviência, eu não aceitava esse lugar que diziam que eu tinha que ficar”, contou.

A professora Vilma Soares usou a arte e a cultura para transformar a realidade do lugar onde vive. Há quase 10 anos, montou junto com o marido o único museu do subúrbio ferroviário, O Acervo da Laje, no bairro de São João do Cabrito. O desejo em criar o projeto partiu de um incômodo que ela sentia ao perceber que o subúrbio era retratado apenas sob uma perspectiva de violência e miséria. “Nosso subúrbio é lindo, não é só violência e tráfico. Aqui existe beleza e é preciso exaltá-la!”, disse. O museu proporciona o contato dos moradores com a arte e a cultura no próprio bairro, já que grande parte desses equipamentos estão situados em lugares distantes do subúrbio, além de funcionar também como escola, oferecendo diversas atividades para os moradores do bairro.

No segundo dia do simpósio, a ativista atuante na Ilha de Maré, pescadora e marisqueira Eliete Paraguassu, pautou o racismo ambiental. O termo é usado para se referir como certas comunidades pertencentes a minorias raciais estão submetidas a uma exposição maior de poluentes e a falta de políticas públicas ambientais, em relação a locais ocupados por classes privilegiadas. Nesse contexto, a ativista luta contra a degradação ambiental e social na Ilha de Maré, comunidade rural com milhares de remanescentes quilombolas que se mantém em sua maioria através da pesca, atividade que está sendo prejudicada pelo funcionamento de indústrias químicas próximas a região. Segundo ela, a Ilha de Maré é o sacrifício do desenvolvimento. “Existe o racismo por ser preto, mas também existe o racismo ambiental que não é falado no Brasil, porque o que está em jogo é o desenvolvimento do Estado. As comunidades quilombolas, pesqueiras e indígenas passam por isso, porque nesses lugares vivem pessoas que a sociedade não se importa”, disse.

“Cada um tem o seu papel no mundo. Não é na Universidade e nem em casa, é no mundo! Então, a gente precisa construir esse mundo de forma diferente”. Foi assim que a integrante da Rede de Protagonistas em Ação de Itapagipe (Reprotai), Jamira Alves iniciou a sua fala. Jamira saiu em defesa da Universidade Pública que para ela “é um campo que deve ser aberto para todos e que não pode ser dividido. É um lugar que tem muito a nos oferecer”. Para Jamira, é preciso construir um feminismo que abranja todas as mulheres. “Eu não posso criar um empoderamento só para o cabelo ou para poder usar qualquer roupa. Cuidado, é preciso empoderar todas as mulheres”, pontuou a ativista.

Também participaram do evento a remanescente do Terreiro Bate-Folha, Carla Nogueira; a professora da Unifesp, Silvia Lopes Raimundo; o hackerativista e integrante do Movimento Cultural das Periferias (MCP) Pablo Paternostro; o ex-secretário de cultura da cidade Ilhéus, João Paulo Couto Santos; professor da UFBA, Leandro de Paula Santos e muitos outros que contribuíram para a discussão acerca da diversidade e desenvolvimento.