Que balbúrdia é essa?

Que balbúrdia é essa?

Por Salete Maso

A cultura se faz mais que necessária, ela é vital para uma sociedade mais inclusiva continuar existindo. E foi nesse clima de certeza, mesmo com todos os indícios de uma possível não realização do Enecult, que as trincheiras se mantiveram firmes, fortes, unidas. Unidas mais do que nunca. Os mais de mil inscritos no evento aproveitaram uma programação onde se discutiu tudo o que a cultura traz em seu escopo: Culturas e América Latina, Artes, Culturas Digitais, Desenvolvimento, Culturas e Festas, Identidades, Infâncias, Juventudes, Culturas e Mídias, Modas, Narrativas Audiovisuais, Culturas e Semiótica, Universidades, Culturas Populares, Gêneros e Sexualidades, Produção Cultural, Patrimônios Culturais e Memórias e Políticas Culturais. Foram 19 GT’s – dois a mais que na edição anterior – com 400 trabalhos apresentados e mais de mil pessoas inscritas.

Durante o evento ocorreram simpósios, minicursos, rodas de conversa, vivências, feira de comida e artesanato através da parceria da Associação dos Artesãos da Bahia (Adaba), lançamentos de livros em parceria com a Editora da Universidade Federal da Bahia (Edufba), fóruns vinculados às universidades e uma programação cultural intensa. “Nesses quinze anos o Enecult se consolidou e ampliou as suas atividades e as suas parcerias – ganhou uma dimensão tal, que hoje é um ponto de encontro de outras iniciativas em cultura que acabam sendo realizadas em paralelo ao evento. O Enecult segue cada vez mais forte. O trabalho coletivo e colaborativo foi o que fez a diferença”, afirmou Adriano Sampaio, coordenador do evento junto com a professora Lynn Alves.

Analisar a produção de um evento como o Enecult é um exemplo do trabalho dos organizadores da cultura. Toda a gestão de recursos, de pessoas, de eventos, de artistas e de pesquisadores dá bastante trabalho. O Enecult vem acontecendo há quinze anos, estimulando o diálogo transversal de pesquisas na área da cultura que são fundamentais para um pensamento crítico e analítico da sociedade como um todo. “É de fundamental importância que um evento do porte do Enecult tenha continuidade. Quando a gente pensa que está na décima quinta edição, não é qualquer coisa e manter o evento não é só uma defesa dele mesmo, mas uma defesa da universidade que vem sendo atacada, já que o Enecult é uma atividade de extensão universitária”, disse Gleise Oliveira, coordenadora de produção e suporte à comissão científica.

Realizar um evento na dimensão política e econômica em que o Brasil está vivendo é difícil. A questão financeira tem impacto na construção de qualquer movimento. O Diário Oficial da União publicou no dia 31 de julho deste ano, cortes do Governo Federal nos Ministérios da Cidadania, da Educação e Economia na esfera de quase R$ 1,450 bilhão. “O Enecult é fundamental sobretudo nesse momento em que a gente vive uma retaliação de áreas fundamentais como as pastas da educação e cultura. Aqui se discute a cultura a partir de uma compreensão muito ampla: desde a economia da cultura às questões identitárias e tantos outros campos que precisam ser revistos. Fazer o Enecult é fundamental enquanto afirmação da importância.” disse Gisele Nussbaumer, professora da Faculdade de Comunicação da UFBA. Há a compreensão de que a área cultural produz sujeitos, produz relações sociais que determinam o modo como se vê o mundo. “O enecult é um espaço de construção de novas redes, de autocrítica, de buscar alternativas, mas sobretudo um espaço de resistência de todo e qualquer fascismo”, completou Gisele.

A universidade não vai recuar. Reivindicar o estado de presença é fundamental para a resistência e principalmente para o futuro. A UFBA é um espaço de reflexão, de diálogo, de pesquisa, responsável pela formação de gestores de uma sociedade autocrítica, mais justa, mais associativa e de inclusão. “Afirmar esse espaço nesse contexto é um grande e mais valoroso passo de todos os realizadores e também dos apoiadores do Enecult”, disse Maria Marighella, assessora especial da Secretaria de Cultura do Governo do Estado da Bahia (Secult-BA).

A economia da Cultura
Como dar aproveitamento aquilo que existe? No momento em que se vive uma crise econômica não se consegue usar o recurso público da mesma maneira. Articular agentes culturais, políticas públicas e sociedade para um melhor uso do recurso é acionar um estado permanente de associação. Este ano uma das fontes de financiamento do Enecult, foi o crowdfunding, e como uma primeira tentativa, uma experiência exitosa. “Vamos precisar imaginar mais o trabalho em rede. Articular com espaços e pessoas que se potencializam em conjunto. Precisamos criar uma estratégia de subversão, ou seja, na criação de novas redes que nos torne capazes de disputar uma narrativa política. Afirmando o espaço coletivo e associativo, tendo como centro o desenvolvimento. Esse é o caminho para reivindicar e ativar a cultura como vetor de desenvolvimento de uma nação que está em ebulição”, completou Maria Marighella.

“Sempre fomos muito dependentes do Estado e o estado atual da política faz com que tenhamos que repensar. Na área da gestão cultural temos que pensar no engajamento, no compartilhamento das redes, das parceiras”, afirmou Gisele Nussbaumer. Trabalhar com outros formatos que sejam menos dependentes é fundamental. Porém não se pode abrir mão do papel do Estado que é sim financiar aquelas áreas que não tem um investimento pelo mercado e que atuam na construção do conhecimento e do intercâmbio. O momento é outro e uma forma de gerir este momento, principalmente nas áreas que estão sofrendo mais cortes é enxergar a necessidade de um aprendizado e mobilizar novas formas de fazer cultura. “Temos visto surgir muitos espaços diferenciados que chamamos de gestão intencional, onde o que interessa é a finalidade e todo mundo se envolve um pouco e muda a relação, o que gera um comprometimento maior de todos os setores e que significa um avanço no formato atual de gerir a cultura”, completou Nussbaumer.