Dados e relatos sobre a indústria dos games presentes em simpósio

Dados e relatos sobre a indústria dos games presentes em simpósio

Por Laila Nery

O Simpósio “A indústria de Jogos digitais no Brasil: políticas, programas e ações” contou com duas mesas na XV edição do ENECULT. A primeira foi aberta pelo professor Luiz Ojima Sakuda, da FIA/SP, que apresentou os dados do II Censo da Indústria Brasileira de Jogos Digitais. O censo estudou aspectos de 375 empresas, que são as desenvolvedoras de jogos no Brasil, até 2018. A segunda mesa foi composta por três desenvolvedoras, Ana Antar, Rafaella Moraes e Christiane Ribeiro apresentaram a Bind (Bahia Indie Game Developers) e a GAMA (Associação de produtoras de Games e Animação).

Os estudos apresentados pelo professor Luiz, no primeiro dia, mostraram que 276 dessas empresas são formalizadas, mas grande parte da Indústria Brasileira de games ainda atua na informalidade. Outro aspecto importante levantado pelo especialista é o de que a região Sudeste do país é onde se concentra a maioria dessas empresas, cerca de 57% da indústria de games do Brasil, sendo São Paulo o grande líder em todos os aspectos, do total de empresas, 118 são paulistas.

O censo estudou inúmeros aspectos dessa indústria. Desde o cenário brasileiro na produção de consoles, passando pelo crescimento e também pelo fiasco de algumas empresas. O censo apurou desde dados de receita, à levantamentos sobre as relações internacionais dessas empresas Todo o Censo e sua comparação com o anterior, de 2014 podem ser acessados através do Ministério da Cultura.

Todas as regiões tiveram um crescimento na quantidade de empresas formalizadas. Mas as pesquisas apontam que a região nordeste foi a que teve o menor crescimento em relação com o censo anterior. A Bahia, em 2014, contava com 22 empresas formalizadas, em 2018, esse número subiu para quarenta.

As desigualdades de gênero, raça e nacionalidades também são um fator preocupante nesse segmento. Apenas 44,5% dessas empresas têm em seu quadro de funcionários afrodescentes, mulheres, indígenas ou transexuais. As mulheres representam apenas 20,7% dessa indústria que historicamente vem sendo dominada pelos homens. Na Bahia, segundo Rafaella Moraes, apenas 6,3% dos desenvolvedores de games são mulheres.

A professora Lynn Alves da UFBA foi uma das coordenadoras do simpósio e apresentou suas pesquisas sobre o desenvolvimento do segmento na Bahia. A pesquisadora levantou dados sobre o crescimento na área de jogos educativos. Para ela a maioria dos desenvolvedores desse ramo utilizam editais para que as empresas consigam se manter. A pesquisadora entrou em contato com todos os desenvolvedores de jogos do estado. Atualmente, a Bahia possui 118 projetos publicados na área de jogos digitais, 38% desses projetos estão voltados para o entretenimento e 26% são jogos educacionais.

A escassez de mão de obra especializada e a falta de recursos financeiros foram as maiores dificuldades apontadas pelas duas pesquisas. Lynn Alves e Luiz Ojima Sakuda também relataram a precariedade das relações de trabalho que se estabelecem internamente nessas empresas. A promoção de estagiários para “sócios” é uma realidade que possibilita a não-contratação dessa mão de obra, que, sem registro empregatício, passa a não ter garantias e benefícios sociais, além de estar a mercê de salários flutuantes, sem piso ou teto salarial.

Rafaella Moraes, Ana Antares e Cristhyane Ribeiro defendem o fortalecimento do mercado interno. As três empresárias atuam em coletivos que fortalecem o mercado baiano para quem produz, desenvolve, ou simplesmente quer atuar na área de jogos digitais. A Bind e a GAMA têm se tornado expoentes locais quando se trata de formação, encontros, fortalecimento desse segmento que possui pouco incentivo. Os coletivos funcionam também como uma ponte entre as desenvolvedoras e as entidades públicas. Cristhyane, uma das fundadoras da GAMA, afirma que o fortalecimento e a integração entre as empresas é muito importante para quem trabalha, mas que nem sempre quem consome precisa saber de onde esses jogos vieram, para ela o maior reconhecimento que as empresas querem receber é o consumo final.

Quando questionadas sobre as dificuldades em lucrar e se manter no mercado Rafaella Moraes é a prova que os desenvolvedores que atuam na área não desistem do que acreditam, apesar dos desafios “aqui na Bahia é muito difícil sobreviver de games sem nenhum incentivo. Quantas empresas sobrevivem no mercado e não mudam de ramo? muitas empresas fazem jogos mas acabam não vivendo disso. É comum procurar outras alternativas de mercado, para que possam sobreviver e continuar desenvolvendo jogos, mesmo não lucrando com isso”, diz a empresária. Para Luiz Ojima Sakuda os desenvolvedores precisam encontrar brechas no mercado que possibilitem a sobrevivência dessas empresas, para ele é necessário enxergar um público que têm uma maior dificuldade de assitência “a gente vê muito a ponta, precisamos enxergar a base da pirâmide. A maioria do que vem sendo desenvolvido só roda em sistemas operacionais mais modernos. Quem desenvolve produtos e enxerga possibilidades em um público alvo diferente têm muitas possibilidades de sucesso”, defende o professor.

Árida, a valorização da cultura nordestina através dos games

Filipe Pereira, professor da graduação de Jogos Digitais da UNEB, que é único curso superior gratuito voltado para o segmento, foi o responsável por fechar a mesa que marcou o primeiro dia do Simpósio. Ele também é desenvolvedor no Game Development Studio Aoca, que no dia quinze deste mês vai lançar Árida.

A primeira versão do game foi contemplada através de um edital da Ancine e é protagonizada por Cícera, uma garota negra, nordestina, que enfrenta a seca do sertão. A história se passa no século XIV e destaca as dificuldades para a sobrevivência no sertão baiano ao mesmo tempo que valoriza a cultura sertaneja regionalista.

Filipe acredita que os investidores têm dificuldade de acreditar no potencial desses jogos, da perspectiva financeira, por precisarem lidar com o fator da imprevisibilidade “é difícil saber se vai vender ou não, estamos tentando usar estratégias para fortalecer a nossa comunidade. Ir para eventos nesse momento está fazendo muita diferença, tem impacto. A partir de um evento que fomos com a Aoca recentemente fomos convidados a apresentar o Árida na Suécia”, conta o especialista.